30 - Silêncio

A professora se ajoelhou ao meu lado e disse baixinho “O Vini ainda não voltou do recreio. Quer ver onde ele está?”. Deitei o lápis vermelho sobre a folha rabiscada, dei um sorriso e saí da sala. Eu não tinha nem cinco anos, empurrava portas com certa dificuldade, e equilibrava um óculos de fundo de garrafa no nariz. Num primeiro olhar, ninguém diria que eu era o único capaz de amansar Vinícius, a fera do Jardim de Infância.

Eu sabia onde encontrá-lo. Atravessei os corredores, passando pelo pátio de entrada, rodeando a biblioteca, até alcançar o gramado nos fundos da escola. Lá estava ele, com um pedaço de pau nas mãos, arremetendo contra uma parede recém-pintada.

“Vinícius, que cê tá fazendo?”. Fiquei com certo receio quando percebi que ele grunhia enquanto batia na parede. Não me deu ouvidos e continuou até quebrar o pedaço de pau. Eu tinha me sentado na grama para esperá-lo, mas ele só percebeu minha presença quando não tinha mais com o que estragar a parede. Sentou-se ao meu lado e abaixou a cabeça. Coloquei a minha mão em suas costas e dei um tapinha. “Bora pra sala?”. Vinícius balançou a cabeça e a respiração se tornou ofegante, tentando segurar o choro.

O sol estava escaldante e estaríamos torrando, não fosse o frondoso jatobá que protegia a grama. A luz passava pelas folhas e iluminavam as lágrimas que teimaram por cair. Sem avisar, Vinícius encostou a cabeça no meu peito e me abraçou forte. Chorou alto, quase urrando. Por um momento fiquei sem reação, mas aos poucos fui repousando os braços. Acabei retribuindo o abraço e ficamos ali por um tempo que eu não saberia contar.

Se fosse hoje, provavelmente eu ficaria desesperado para dizer algo, ou para descobrir o que estava acontecendo com ele. Mas uma criança de quatro anos não raciocina assim. De alguma maneira, eu sabia que Vinícius só precisava de um amigo. Não tinha medo de ir atrás dele no recreio, ou de pedir que ele parasse de bater em alguma criança do primeiro ano. Ele era meu amigo, e amigos resgatam uns aos outros.

Quando ele parou de chorar, enxugou os olhos na blusa e ficou alguns segundos encarando a grama. “Bora pra sala?”. Ele assentiu. Seguimos calados pelos corredores da escola. A bermuda suja de terra, os olhos molhados e irritados, mas com um leve sorriso no rosto.

Vinícius, mesmo sem saber, também me resgatava todos os dias. Com ele eu aprendi que às vezes basta o silêncio de um abraço, e o coração se acalma.


Escrito por Alcy Filho em 13/04/2016.
Inspirado em "Conta Comigo" (1986).

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29 - Jataí


Alguns mais antigos dizem que essa história de abelha é tudo fantasia. De acordo com eles, batizaram a cidade em homenagem aos pés de jatobás, que também são chamados de jataís. Daí que nessas, e outras, árvores é encontrada uma abelhinha dócil de um mel azedinho, e a dita cuja passou a ser conhecidas como abelha jataí. Daí que a gente para pra pensar… Os caras chegam numa região do cerrado e avistam o que? Um monte de abelhas? Eu prefiro imaginar que viram os frondosos jatobás e assim decidiram chamar estas terras de Paraíso de Jataí. Com o tempo a parte do “paraíso” cairia do nome, mas ficaria na mente de muitos. Tá que aqui não é exatamente um paraíso… Ok, nem de longe é um paraíso. Contudo, se souber observar, procurar, tiver uma certa paciência, vai se apaixonar pela cidade.

Você definitivamente não está no melhor bairro da cidade, e prefiro não citar nomes para não sofrer nenhum apedrejamento. Mas sua moradia afastada não te impede de seguir para uns lugares bem memoráveis. Eu os considero assim porque cada um foi cenário de algum filme que ainda roda na minha mente. O Lago JK, por exemplo, recebeu a mim e a primeira menina que beijei, já no meu primeiro ano da faculdade. Sim, faculdade. O lago não chegou a presenciar o beijo, já que ela teve de levar a irmã mais nova, caso contrário a mãe não a deixaria sair comigo. Tivemos de nos manter a alguns palmos de distância, tentando driblar a timidez, comentando sobre a vida e protegendo os olhos do reflexo do sol no lago. A gigantesca roda d'água jogava algumas gotículas nos nossos pés, o que me faria quase escorregar ao levantar do banco.

O segundo encontro aconteceu em outro lago da cidade, o Diacuy. Maior e mais arborizado, é cheio de patos, coelhos e a famosa gangue de macacos, que rouba até os anéis dos mais desavisados. Enquanto andávamos de mãos dadas – suadas, diga-se de passagem – percebi uma menina nos seguindo, de cabeça baixa. Era uma amiga dela, contratada para vigiá-la caso eu fosse algum tipo de nerd psicopata. A vigia parecia estar extremamente desconfortável com a situação, então manteve distância de dois bancos. A garota com quem eu estava me encontrando era bem menos tímida que eu, e transpôs rapidamente as barreiras iniciais do abraço e da cabeça no ombro. Ficamos assim mais de hora, conversando trivialidades aqui e ali, até que o céu resolveu nos expulsar.

Subimos apressados a ladeira, aproveitando qualquer pedaço de telhado que pudesse nos abrigar. Jataí é uma grande ladeira, entenda isso. Você está morando no final dela, então sempre carregue um guarda-chuva quando o céu estiver um pouquinho cinzento. É sério, malhar as panturrilhas enquanto a chuva te resfria é a receita certa para uma semana de nariz pingando. Eu, é claro, não parava pra pensar nisso naquela época. Quando estávamos afastados uns três quarteirões do lago, tivemos de nos despedir. Morrendo de vergonha, segui a cartilha dos filmes de romance: levei minhas mãos à cintura dela, colamos os pés e lentamente desci a cabeça. Quando estávamos para nos beijar, ela desviou o rosto e pousou os lábios na minha bochecha. Se despediu apressada e me largou desesperançoso na esquina.

Continuei subindo a rua, espremendo-me nos muros, numa tentativa lerda de não me molhar tanto. Lógico que ela não queria, por que iria querer?, pensei desgostoso. E eu não insistiria, precisava respeitá-la. Vai que ela se assustava e resolvia fugir de mim… Um trovão seguido de um grito me chamaram a atenção. Era ela atravessando a rua e chamando pelo meu nome. Estava ensopada e ofegante quando me alcançou na sombra de uma árvore que não me lembro o nome. “Era pra você insistir”, ela disse, sorrindo. Tomei coragem e a beijei. Foi totalmente diferente de qualquer coisa que eu poderia esperar. Estava com frio, vergonha e ansiedade, mas mesmo assim foi o melhor primeiro beijo que eu poderia ter.

Voltei para casa todo sorridente, revisando várias vezes a cena na cabeça. Jataí foi o cenário daquele primeiro curta-metragem de romance que protagonizei, filmei e guardei na mente. A menina e eu seguimos caminhos diferentes. Certamente hoje temos ideias diferentes sobre relacionamento, cada qual com suas convicções. No entanto, uma coisa é certa: mesmo com outros sentimentos e intensidades distintas, nós dividimos a mesma lembrança.

Mas calma, todo esse relato não era para falar da minha vida, e sim de Jataí. Essa cidade linda, problemática e encantadora. Difícil de lidar e tão difícil de abandonar. Se você deixar, ela será o cenário para o filme que roda na sua cabeça. E quando for falar daqui, inevitavelmente vai começar a falar de você mesmo, porque a cidade se alimenta de nossas lembranças. E as minhas melhores lembranças são de Jataí.


Escrito por Alcy Filho em 21/01/2016.
Inspirado em "Manhattan" (1979).

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